O objetivo da vida é o auto-desenvolvimento, realizar perfeitamente a nossa natureza, é para isso que estamos no mundo. Hoje em dia, as pessoas têm medo de si mesmas, esqueceram do mais elevado de todos os deveres, o dever que cada um tem para consigo mesmo. Claro, elas são caridosas, dão de comer a quem tem fome e vestem os mendigos, mas suas próprias almas andam famintas e nuas, a coragem desapareceu de nossa raça. Talvez nunca tenhamos realmente possuído. O terror da sociedade que é a base da moral, e o terror de deus que é a base da religião, são essas duas coisas que nos governam. Creio que se o homem pudesse viver a sua vida em toda plenitude, dar forma a cada sentimento, expressão a cada pensamento, realidade a cada sonho, o mundo receberia tal impulso de alegria que venceríamos os males do medievalismo e voltaríamos ao ideal Helenico, talvez a algo mais requintado, mais rico do que o ideal Helenico. Mas mesmo o mais corajoso dos homens tem medo de si próprio, as mutilações do homem selvagem têm trágica sobrevivência na renuncia que nos estraga a vida, somos punidos por nossas recusas. Cada impulso que tentamos abafar fermenta em nosso espírito e nos envenena, a única maneira de uma pessoa livrar-se da tentação é ceder-lhe, se resistir a alma adoecerá pelas coisas que proibiu a si própria, por desejar aquilo que suas leis monstruosas tornaram monstruosas e ilícitas.
Extraído do livro O Retrato de Dorian Gray.
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